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Caminhos do Amor – Cap 70

POV NARRADOR   

A vida é feita de capítulos, como um livro em branco que vai sendo preenchido em tempo real, o que a torna um livro mágico ou para os céticos um livro aberto. Qualquer livro comum, que se leia para os filhos ou para si mesmo não possui um verdadeiro futuro. Você pode ler o final antes mesmo de começar a história. Mas não na vida. O livro da vida é preenchido letra por letra, frase por frase, página por página até que finalmente um capítulo termine e outro novo se inicie. Há capítulos mais longos e outros mais curtos. Capítulos cuja essência perdura por anos. Onde aquele evento mal resolvido está sempre implícito nos eventos seguintes da vida. Atrasando a felicidade ou simplesmente impedindo que ela sobressaia.

O personagem principal, que é você, pode modificar-se a todo momento. Os eventos acontecem e a maneira como se lida com eles podem transformar efetivamente você. E é nesses momentos em que refletimos. Geralmente um conflito, uma dor muito grande ou uma situação extrema faz com que você olhe para si e recomece a ler o livro da sua vida. Você recomeça o primeiro capítulo, relendo em suas lembranças o tempo onde tudo que você tinha era um mundo de sonhos e fantasias. Onde a sua preocupação enquanto criança era “qual desenho vou assistir” ou “qual doce vou comer” ou “qual brincadeira vou jogar primeiro”. São os capítulos mágicos, escritos na inocência, onde tudo é possível. Onde o mundo é colorido e onde não se tem responsabilidades. Onde as maldades não atormentam.

Você continua avançando no livro, ainda com um sorriso bobo e nostálgico no rosto, lembrando da sua primeira professora – que pode ter sido sua primeira paixão, ou não – e do seu melhor amigo – que ainda pode fazer parte da sua vida se tiver sorte. Você lembra do bairro onde morou, da casa, do cheiro de comida caseira, do parquinho que você ia todas as tardes. Você lembra como a vida era doce e boa de viver.

Os capítulos vão avançando e você começa a se tornar adolescente. Agora, sendo um adulto, você tem um olhar crítico do mundo e tendo esse olhar você pensa na época da juventude e se questiona: “Porque eu deixei meus hormônios me afetarem tanto?”. O mundo não é tão colorido assim nesses capítulos. Nosso eu adolescente faz com que a gente passe a ligar para tudo, se importar com tudo intensamente. E nos faz desejar veementemente cometer o maior erro de todos: querer crescer rápido demais. Passamos a não aceitar quando as coisas não acontecem da maneira que imaginamos, afinal, sonhar e pensar positivo são coisas de criança e pura perda de tempo.

E então, a gente se apaixona pela primeira vez. É louco, insano. Sufoca. O mundo passa a ser apenas aquela pessoa e somente ela. Nada mais tem graça a não ser ela. A vida é um saco e só deixa de ser quando aquela pessoa está presente.

Amar é muito bom. Difícil mesmo é não ser amado. Difícil é conviver com a rejeição e ainda assim não querer o mal do outro. É aceitar que alguém não gosta da gente sem pensar “O que há de errado comigo?” Ou ainda “Qual o problema dela, afinal? ”. Veja bem, ninguém é obrigado a amar ninguém. E não ser amado – amorosamente falando – não significa que você seja uma pessoa horrível ou que a pessoa seja horrível. Significa apenas que o seu primeiro amor, infelizmente, não foi correspondido. Acontece a todo momento e o mundo continua girando. E isso não necessariamente é ruim. Tudo é aprendizado. Tudo faz com que você cresça, claro, se você permitir. Como você vai apreciar ser amado, sem saber o quanto é ruim não ser? Experiências existem para te fazer viver intensamente e nunca pela metade. A felicidade é sempre mais real depois que conhecemos a dor.

O problema é que a gente muitas vezes complica o simples e faz com que os capítulos da vida se tornem extremos e sofridos. A gente se consome dentro do próprio orgulho e perde a habilidade de criança que nos fazia tão feliz. A gente esquece que tudo passa, que sorrir é melhor que chorar, mas chorar faz parte também. A gente esquece de sonhar e brincar. E os erros se tornam sucessivos. Um emaranhado de linhas do destino que vão nos prendendo, prendendo, até nos deixar sem saída. Transforma nosso presente e vai derrubando nosso futuro. E somente quando estamos totalmente presos na cruel realidade que nós mesmos traçamos e a dor vem é que pensamos: “O que eu fiz com a minha vida? ”.

Era exatamente esse pensamento que pairava na mulher loira sentada no banco de concreto duro e ligeiramente úmido da prisão estadual do seu país. Era exatamente esse pensamento que consumia cada pequena terminação nervosa do seu corpo. A sensação de que tudo estava errado. Sua vida era um grande erro que ela mesmo causou. Ela deixou que a rejeição do primeiro amor tirar sua lucidez e a cegasse. E o pior de tudo é que ela não queria enxergar. Ela fez uma armadilha para si mesma e ficou presa lá. Ela quis fazer mal a mulher que amou – ou apenas teve uma obsessão – e agora estava tão infeliz que não podia fazer nada além de culpar-se.

O capítulo estava sendo escrito em tempo real e a vida, justiceira como é, estava cobrando dela o pagamento de suas ações. Seu corpo estava mais magro que antes, porque era impossível encontrar prazer em uma comida insossa e fria. Os cabelos, antes brilhosos e macios, estavam duros como palha de tanto serem lavados com sabonete que cheirava a banha de porco. A pele mais ressecada do sol quente tornava ainda mais horrenda sua aparência.

Engraçado que a gente tende a se preocupar muito com a aparência e as futilidades do mundo real. Mas ali, sentada sozinha com seus próprios demônios, nada mais incomodava a mulher do que a dor por ter o coração arrependido. Poucas coisas na vida doem mais que o remorso, porque é nessa hora que percebemos que o tempo não volta. Podemos arrancar as páginas do nosso livro da vida, rabisca-las, queimá-las. E ainda assim, o que foi escrito ali não vai sumir ou mudar. E quão triste é pensar que talvez em algum outro lugar do mundo tenha alguém como ela?

As lágrimas grossas escorreram pelo rosto da mulher solitária como resultado da sua constatação que o tempo não volta. O que foi escrito não pode ser apagado e o que virá não pode ignorar as consequências. Escrever um capítulo que ignore isso é possível. Apenas os loucos fazem isso. Eles criam uma realidade paralela e se prendem nela apenas para esquecer-se do real.

            No entanto, Jaqueline Mansour não era louca.

Era só mais alguém que esqueceu do que escreveu no início da vida. Era só mais alguém que se deixou levar por seus monstros. Alguém que precisou preencher diversos capítulos no livro da própria vida para perceber que a maioria de suas escolhas foram erradas.

Havia chegado a hora de lidar com elas.

– Guarda!! Guarda!! Ela gritou algumas vezes em desespero, sentindo sua alma cobrar dela que gritasse. Ela gritou no corredor escuro, ouvindo o eco da própria voz, até que finalmente uma mulher não muito contente apareceu. Olhava-a como quem olha um inseto insignificante. E ironicamente, era assim que ela se sentia.

– O que você quer? A guarda baixinha e robusta, perguntou asperamente com o cassetete em mãos em um claro sinal de ameaça.

– Eu gostaria de enviar um pedido de visitas! A mulher encarou a detenta a sua frente com curiosidade. Jaqueline estava a meses na cadeia e nunca quis preencher um pedido. Seu repentino desespero era no mínimo intrigante e a agente não pode ignorar isso.  – Eu sei que no final dessa semana terá visitas, não é? Ainda posso inscrever alguém?

O silêncio se fez no corredor escuro. A agente encarava a detenta a sua frente. Ela parecia cansada e com certeza muito desesperada. Agarrava nas grades com tanta força que as pontas dos seus dedos estavam brancas. Desejou virar e deixar falando sozinha, afinal, sua soneca da noite fora interrompida apenas por algo que ela podia perguntar pela manhã. No entanto, mesmo não querendo, teve pena da mulher.

– Não sei. Terei que ver com a administração. Agora durma e não grite mais! A mulher começou a se distanciar e Mansour viu sua chance escapar. Ela não sabia pedir, já que estava ali presa justamente por querer sempre mandar. Mandar nos outros, no destino e no livre-arbítrio. Então se quisesse uma chance de acertar, deveria aprender a pedir. Ela tinha que ser educada agora, como quando era criança. Nunca é tarde para lembrar do que é certo.

– Por favor, agente. Eu tenho me comportado e nunca fiz nenhum pedido nesses meses todos. É muito importante que eu faça agora, antes que seja tarde demais. Por favor!

A agente parou no meio do corredor. A súplica da voz da mulher atingiu-a em cheio. Ela tinha que manter a postura e ser durona, mas não podia ignorar que todas as pessoas merecem uma chance. Ponderou seus pensamentos entre o dever e a moral. O coração de Jaqueline batia furioso no peito e seus pulmões só sugaram o ar novamente quando a agente se virou em sua direção.

A antes arredia prisioneira parecia finalmente respeitar as regras de convivência. Nunca criou confusão, mas também não era amistosa. Era rude na maioria das vezes com qualquer um que se aproximasse, porém, sua voz agora estava diferente. Ela parecia diferente. A guarda encarou-a por uns instantes e ponderou o que fazer. Decidiu pela justiça, afinal era isso que ela jurou fazer diante do seu país. Ser justa.

– Ok. Preencha o formulário no horário do café e verei o que posso fazer para incluir seu pedido para esta semana.

– Obrigada. Muito obrigada. Mansour disse sorrindo e a sensação lhe pareceu boa. Foi seu primeiro sorriso em meses e ironicamente havia sido por gratidão e não por avareza.

Mansour ainda não sabia, mas a gratidão tem sempre um retorno instantâneo. Seu sorriso sincero abrandou ainda mais a guarda e ela sentiu vontade de ajudá-la.

– Para adiantar, quem você quer convidar? Vou procurar os endereços.

Jaqueline suspirou fundo e encarou a mulher a sua frente. Diria os nomes em voz alta e esperava realmente que elas viessem, embora tivesse quase certeza que não viriam.

– Amy Collins e Isabel Aguillar.

– As mulheres que te colocaram aqui? A agente perguntou de imediato totalmente surpresa. A história de Jaqueline Mansour e Amy Collins estampou todas as capas de revistas e jornais por algumas semanas. Elas eram ligeiramente públicas e nada se oculta da mídia por muito tempo.

– Na verdade eu me coloquei aqui.

– Até que enfim percebeu garota. Antes tarde que nunca. Gosto de pessoas corajosas e é preciso coragem para fazer o convite que vai fazer.  A agente bateu o porrete de leve na grade da cela e deu um meio sorriso. – Mas devo lembrar que se causar encrencas durante a visita não terá mais nenhuma ajuda da minha parte e terei que complicar sua vida. São as regras.

– Não vou causar problemas. Já esgotei minha cota. Não se preocupe.

A mulher assentiu, satisfeita com a sinceridade das palavras da jovem presa. Por um momento, lembrou de sua filha adolescente, com os hormônios em fúria e uma cadeia de decisões erradas. Parte dela compreendia, ainda que jamais concordasse ou aprovasse, as escolhas erradas que ela fez. E quem era ela para impedir de que alguma forma ela as concertasse?

Enquanto a agente se afastava Jaqueline finalmente entendeu que o livro mágico da vida é justo. Ele te dá exatamente aquilo que você escreve. E ela queria, finalmente, escrever coisas boas.

 

********

            Era uma tarde nublada e cinzenta. O relógio batia dez para duas da tarde. Os portões azuis imensos da Prisão Feminina Estadual do Rio de Janeiro estavam cerrados. Por uma portinhola azul no canto havia uma fila enorme para o horário de visitas. Amy respirou fundo olhando todas aquelas pessoas sendo revistadas e pensou se realmente deveria passar por isso para falar com alguém que havia feito tanto mal a ela. Ela queria sair correndo, mas um aperto em sua mão a fez voltar para a terra. Encarou sua namorada com o olhar apreensivo e um tanto contrariado. Amy não queria estar ali. Ela já tinha – ou ao menos pensava que sim – encerrado aquele capítulo de sua vida. Já tinha começado um novo onde não havia mais nada de Jaqueline Mansour. Não via qualquer razão para ouvir o que a mulher tinha a dizer antes que ela fosse transferida para os Estados Unidos, já que também havia cometido alguns crimes por lá.

No entanto, em algum momento entre dizer veementemente que nenhuma das duas iria e os embates que teve com Isabel por isso, ali estava ela, há alguns metros da entrada da prisão. Não havia nada que Isabel não conseguisse dela com seus malditos olhos verdes e teimosia ímpar. A mulher foi irredutível em ouvir o que Mansour tinha a dizer e como Amy jamais a deixaria em uma prisão feminina sozinha, não teve outra alternativa que não ir também.

– Nós precisamos mesmo fazer isso? Questionou Amy pela milésima vez enquanto via sua namorada pagar o taxista e revirar os olhos.

– Vamos amor! Não acha que já discutimos isso o suficiente?

– Eu só não entendo porque droga você quer ouvi-la depois de tudo que ela nos fez! Amy disse irritada, parando ainda na calçada e Isabel virou-se para ela com a expressão séria, não acreditando que a morena continuava resistente.

– Porque estou de saco cheio de fugir Amy! Será que você não entende? Eu recebi uma droga de carta do Caio e não consigo fazer nada que não reler as palavras dele. Eu não consigo responder, não consigo rasgar, não consigo esquecer! Eu estou cansada disso! Eu vou entrar nessa prisão porque eu consigo fazer isso! Eu consigo entrar lá e olhar nos olhos dela! Eu consigo ouvir o que ela tem a dizer e quem sabe dizer o que eu não disse! Eu quero encerrar esse capítulo e talvez ela também queira isso! Se for demais para você apenas fique aqui e me espere, mas eu vou entrar lá Amy!

Amy paralisou. Finalmente havia entendido os reais motivos da namorada. Entre o susto da bronca que ganhara de Isabel e o peso das palavras dela, Amy se apaixonou outra vez. Ela se apaixonou pela força daquela mulher a sua frente. Isabel sofreu até mais do que Amy enquanto fora sequestrada, e ainda assim estava ali, tentando dar uma oportunidade de redenção para Mansour. Tentando perdoar. Perdoar. Isabel ainda não conseguia perdoar o irmão e talvez por isso relesse aquela carta todo dia. Mas ela podia perdoar Mansour e por isso estava ali.

A morena puxou sua namorada para um abraço e beijou delicadamente seus lábios. Isabel retribuiu, sentindo sua irritação esvair-se nos lábios carnudos de Amy. Por um instante, enquanto seus lábios se tocavam nada havia ao redor. O tempo parou outra vez como sempre acontecia. Amy deu alguns selinhos carinhosos na namorada, acariciando sua bochecha. Elas se encararam em silêncio, misturando tons de azul e verde em um brilho de amor intenso e compreensão.

– Desculpe. Não tinha percebido o quanto estar aqui significa para você. Não posso prometer que vou perdoá-la, embora ainda tenha minhas dúvidas de que seja essa a intenção dela, mas prometo que vou ouvi-la de coração aberto.

– Obrigada amor. Eu realmente vou me sentir muito melhor tendo você ao meu lado.

– Sempre estarei do seu lado Bel…

Amy entrelaçou os dedos aos de Isabel e atravessaram a rua. Elas entrariam por outro acesso para evitar a mídia e a grande fila. Fariam uma revista individual e teriam um encontro numa sala privada e vigiada com Mansour. Amy não sabia, mas todos os privilégios foram conseguidos pela própria mulher apenas por ter sido honesta e educada pela primeira vez.

Após a revista, seguiram acompanhadas por uma agente baixinha e robusta até a sala da visita privada. A mesma que estava ajudando Mansour. O local era cinza e frio. Tinha uma mesa de ferro ao centro, com quatro cadeiras de ferro.

– Vocês podem aguardar aqui. Vou buscar a prisioneira. A agente disse com calma na voz e Amy agradeceu.

– Vai ficar tudo bem ok? Você vai ver!

Isabel disse docemente beijando a mão da namorada que estava ligeiramente tensa. Ela sabia que era difícil para Amy, mas ela não queria deixar a morena cometer os seus erros. Remoer o passado e cultivar sentimentos ruins só faz com que a vida se perca e cobre a dívida no futuro. Isabel tinha suas dívidas que talvez nunca fossem pagas. Ela só queria que Amy não as tivesse. Que perdoasse enquanto era tempo. Porque quanto mais guardamos mágoa, mas pesada e escura ela se torna e quando vemos simplesmente não conseguimos deixa-la para trás.

A porta à frente delas abriu em seguida e por ela uma mulher totalmente diferente daquela que tentou separá-las entrou. Amy arregalou os olhos surpresa com a visão da mulher a sua frente. O corpo magro e queimado de sol sobre um macacão laranja, a pele ressecada e os cabelos esguichados e duros. Olheiras fundas e expressão cansada. No entanto, o que mais chamava atenção em Jaqueline não era seu estado físico e sim seus olhos. Eles não tinham mais orgulho ou soberba. Eles pareciam ter culpa, muita culpa…. E tristeza.

Isabel apertou a mão da namorada enquanto a ex-algoz sentava-se na cadeira de frente para elas. Jaqueline colocou as mãos algemadas sobre a mesa de ferro e ficaram em silêncio, apenas encarando-se simultaneamente. Jaqueline sentia seu coração pular no peito. Ensaiou a semana toda para essa conversa, mas agora que estava ali, diante do casal, parecia muda. Pedir perdão era mais difícil do que parecia, ainda assim ela sorriu por dentro. Sorriu porque sabia que sua dificuldade não era por orgulho e sim por vergonha do que fez.

– Olá Amy. Olá Isabel. Jaqueline disse baixo ainda buscando forças para falar – Vocês se incomodam se eu ficar sem algemas? Eu não precisava, mas achei que se sentiriam melhor se eu viesse algemada.

– Não é como se eu não soubesse me defender… Amy disse ainda meio arrisca.

– Sei que sabe. Você acabou comigo da última vez Collins.

O tom de Jaqueline era amistoso e calmo, mas ainda assim Isabel apertou a mão da namorada para certificar-se que ela estava bem. Amy olhou para sua namorada e assentiu, como se tivesse entendido. Ela não estava bem ali, mas prometeu que ouviria até o fim.

– Porque nos chamou aqui? Amy questionou querendo acabar logo com toda tortura.

– Posso? – Mansour levantou os punhos mostrando as algemas – Ou preferem que eu fique assim?

– Você pode tirar. Isabel respondeu, já que Amy estava com o corpo tenso ainda na defensiva.

– Obrigada Isabel. É um grande alívio para os punhos não precisar usá-las.

A mulher sorriu gentilmente para a loira, que retribui em um sorriso curto. Enquanto a guarda se aproximou para abrir as algemas, Amy arqueou a sobrancelha ao ouvir Mansour agradecer sua namorada. Ela definitivamente estava diferente. Isabel ficou apenas olhando os gestos da guarda, sentindo a dor de Mansour por trás dos olhos castanhos opacos. A loira teve orgulho de si mesma por estar ali. Teve a certeza que foi a decisão certa. Só esperava que Amy também pensasse isso em algum momento.

– Você ainda não respondeu porque nos chamou aqui Mansour. Porém lhe aviso que eu vim apenas porque não queria deixar Isabel sozinha. No entanto, se nos chamou aqui para nos ameaçar novamente eu juro por Deus que….

– Eu te chamei aqui para pedir perdão Amy.

Mansour disse calmamente. Os olhos tinham vergonha, mas também sinceridade. Isabel reconheceu a verdade nos castanhos apagados da mulher e por um momento teve vontade de chorar. Ela sabia que precisava aprender com o perdão, ainda que no fundo não estivesse pronta para fazer isso com sua família. Amy parou de falar imediatamente. Encarou Mansour com o olhar confuso, tentando realmente acreditar nas suas intenções.

– Sei que não tem porque acreditar em mim, mas pela primeira vez na vida estou sendo honesta comigo mesma. Eu sei que fiz mal a vocês duas, especialmente a você Amy. Eu deixei meu orgulho virar ódio e fiz muitas coisas que não deveria apenas movida por uma vingança que na verdade nunca foi justa. Você tinha todo o direito de não me amar. Tinha direito de dizer não e isso não te torna culpada de nada. Então, se um dia você puder, por favor me perdoe por todo mal que lhe causei. A você, a Ana e a você também Isabel. Me perdoe por tudo que te fiz.

As palavras fugiram de Amy. Na verdade, ela ponderou que estava sonhando ou que não tivesse chão sobre os pés. Jaqueline Mansour estava ali, maltratada pelo tempo e pela prisão, pedindo humildemente seu perdão. Isabel apertou novamente a mão da namorada e Amy encarou os orbes verdes que tanto ama, sentindo seus pensamentos aos poucos fazerem sentido outra vez. Ela encarou Mansour em seguida e finalmente ouviu com o coração. Tudo que encontrou foi verdade. Ela viu a sinceridade nos olhos da mulher e seu corpo relaxou de imediato.

– Porque agora? Perguntou pacificamente. Mansour abaixou a cabeça e deu um sorriso antes de encarar Collins novamente.

– Porque perder tudo me fez pensar no que eu realmente tive um dia e tudo que eu encontrei foi vazio. Eu tinha poder e tudo ao meu alcance, mas não tinha o que realmente importava. Amigos, família, alguém para amar. Eu cultivei o ódio e no final não me restou nada. Eu deveria, ao invés, ter cultivado amor, não é? Assim como você fez.

Isabel sentiu quando uma lágrima escorreu por seu rosto. Sua vida passando por seus olhos e a solidão da mulher a sua frente sendo palpável para ela. Ela teve compaixão de Mansour e no mesmo instante a perdoou.

– Eu te perdoo Jaqueline. Isabel disse com sinceridade e emoção na voz.

Jaqueline sorriu de alívio e assentiu com enorme gratidão. Seus olhos brilharam pela primeira vez e uma lágrima escorreu pela bochecha da mulher ao mesmo tempo em que uma tonelada saiu de suas costas. Ela se sentiu mais leve, ainda que ansiasse pelo perdão de Amy e que precisasse dele para seguir.

– Obrigada Isabel.

“Cinco minutos Mansour” A agente avisou pela janelinha e a prisioneira assentiu. O privilégio de receber as duas na sala privada não dava direito a duas horas e sim vinte minutos de visita. Jaqueline preferiu isso, não só porque era até mais do que esperava receber das mulheres depois de tudo que fez, mas também porque sabia que uma conversa privada, longe da confusão do pátio de visitas comuns seria melhor para elas.

– Bem, eu preciso voltar. Agradeço por terem vindo. Eu estou indo ser julgada nos Estados Unidos e existe uma grande chance de eu não voltar. Então, de verdade, obrigada por me ouvirem.

– Você vai cumprir todo regime lá? Isabel perguntou curiosa.

– Existe uma chance do meu regime ser o de execução, na verdade. Então não sei a resposta para sua pergunta. Sinto muito. Eu prefero passar anos aqui e meu advogado vai lutar para isso, porém, talvez eu não tenha direito ao privilégio do tempo depois de ter usado todos os meus anos erradamente.

– Sinto muito Mansour. Eu espero, honestamente, que você tenha uma segunda chance. Tenho certeza que vai saber aproveitar dessa vez. Isabel disse honestamente. Jaqueline assentiu sentindo-se emocionada. A vontade de chorar presa em sua garganta. Ela precisava ir antes que chorasse na frente das mulheres.

Amy ouvia tudo, ainda em silêncio, sentindo-se esmagar por dentro. Ela permitiu-se ouvir com o coração e quando fez isso tudo ficou pequeno. Seu orgulho ficou pequeno. Sua raiva dissipou-se. Ela também havia cometido seus erros com Jaqueline e agora aquela garota perdida e mimada do colegial podia ser executada. Ela poderia morrer e quando Amy pensou nisso sentiu-se pequena. Percebeu que a vida é curta demais para guardar rancores. E se aquele lugar era uma prisão para o corpo, o rancor era uma prisão para alma. Percebeu que não tinha virado a página em relação a Mansour como tinha pensado, porque ainda havia duas coisas que ela não havia feito.

Mansour levantou-se dando um último sorriso curto a Isabel e apertando a mão da mais nova. Ela olhou uma última vez para Amy e suspirou. Sabia que não seria fácil o perdão da mais velha e não a culpava. Ao menos ela tentou e quem sabe mandaria uma carta dos Estados Unidos pedindo perdão novamente. Quem sabe até lá Amy estivesse disposta a perdoá-la. Ela lutaria por isso enquanto ainda tivesse tempo.

Virou-se para sair da sala satisfeita consigo mesma por ter falado com as mulheres. No entanto, antes que partisse a voz da morena que perseguiu por anos ecoou na sala cinza e o coração dela acelerou no mesmo instante.

– Eu perdoo você Mansour. Amy disse levantando-se e indo para perto dela. Ficaram uma de frente para a outra de pé, perto da porta. Dessa vez não havia ódio, nem desafio. Não havia ameaças. Havia apenas compreensão. Havia apenas libertação.

– Eu perdoo você. Você me perdoa também? Amy perguntou num fio de voz, sentindo o peso do remorso sair de si.

– Pelo quê?

– Por ter feito aquela armadilha, por não ter desmentido ela. Por ter deixado que você sofresse bulling apenas por orgulho. Eu deveria ter sido honesta sempre. Deveria ter dito ‘não’ até você cansar de ouvir. Talvez tudo tivesse sido diferente se o baile fosse diferente.

– Não culpo mais você Amy, mas se te deixa tranquila eu já te perdoei pelo baile e fora isso não tenho mais nada a perdoar. Eu espero sinceramente que você seja feliz. Que vocês duas sejam. Mas tenho certeza que já são.

– E eu espero que você tenha mais tempo e que possa ter novas chances. Porque todo mundo merece isso.

Mansour esticou a mão um pouco trêmula para Amy e morena apertou de bom grado. Naquele gesto simples, que foi observado por uma Isabel aliviada e emocionada, o capítulo das garotas fora finalmente encerrado. A trégua se firmou. Elas podiam agora seguir em frente sem o peso da culpa, sem a dor latente do remorso e sem a prisão do rancor. Elas podiam escrever um capitulo novo, sem resquícios de um passado. Sem cobranças futuras. Sem carma.

Mansour sorriu uma última vez, sem conter uma lágrima que escorreu por seu rosto, enquanto trocava um último olhar cúmplice com Amy até sair da sala em seguida. Uma lágrima também escorreu pelo rosto de Amy assim que a mulher partiu.

Era o efeito do alívio e da liberdade. Era o efeito do perdão se concretizando pela lágrima solitária nos rostos de ambas.

Perdoar é divino. Isso, ao menos, é que o dizem. E Amy agora entendia o porquê.

A porta se fechou e Isabel correu para a namorada. Amy abraçou com força aquele anjo que surgiu em sua vida e chorou. Ela chorou de alivio e de gratidão. Ela sussurrou no ouvido de Isabel que a amava demais. Ela prometeu que estaria junto dela quando ela estivesse pronta a perdoar também. Isabel chorou ao ouvir a promessa de sua amada, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo. Sentindo-se feliz por ver Amy seguir em frente e por permitir que Mansour tivesse uma chance de se resgatar.

Havia apenas gratidão nos três corações que jaziam naquela sala. Gratidão por novas oportunidades, por novos tempos, por perdões concedidos.

E enquanto o tempo corria, Jaqueline voltava para sua cela ainda sorrindo e revivendo o perdão que havia recebido. Agora não mais importava o julgamento. Ela queria ter outra chance na vida, mas se não tivesse, ao menos sua alma estava finalmente livre.

E enquanto o tempo corria, Amy entrelaçou sua mão a de Isabel e saíram da prisão ainda mais fortes do que entraram. O amor delas ainda mais puro e o coração mais leve. Amy pensou em Jaqueline e sentiu compaixão ao invés de rancor.

E enquanto o tempo corria, minuciosamente e em silêncio, as linhas do livro da vida continuavam sendo escritas em tempo real para as três mulheres, modificando seus destinos. Dessa vez, no entanto, não haveria mais cobranças no futuro.

            Haveria apenas paz.

***********

Hey Amybetes, como estamos?

Espero que tenham gostado desse capítulo. Caminhos do Amor fala de como o amor pode romper barreiras. E através de Amy e Isabel podemos ver o quanto amor transforma para o bem. 

Esse capítulo foi muito forte e emocionante para mim. O perdão é algo tão importante e que muitas vezes deixamos passar. Então, que vocês reflitam sobre isso. A vida é curta e o tempo não volta. 

Estamos na reta final… acho que apenas mais dois e encerramos.

To trabalhando numa segunda fase, se o roteiro ficar bom vou fazer.

Fiquem com Deus e deixem seus comentários,

Com carinho,

Bru 🙂

 

 

 

 

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