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Capítulo 4 – Fragrância

                Parecia um domingo diferente quando Dani relutou em abrir os olhos. O despertador do celular insistia em soar um estridente e irritante alarme, que fez com que a mulher resmungasse levando as mãos a cabeça. A sensação de que seu cérebro ia explodir pelo latejar em suas têmporas a fez lembrar das inúmeras doses de tequila que tomara na noite anterior. Doce ilusão do álcool. Não resolve os problemas, pelo contrário, cria outros. Fechou os olhos com força, rolando o corpo na cama com esforço, sem conseguir encarar a luz do sol que invadia sua janela sem piedade. Os olhos doíam, a cabeça doía, mas havia algo que a incomodava ainda mais que a ressaca matinal e por mais que ela tentasse ignorar isso, por alguma razão a intuição lhe dizia que poderia perder essa batalha muito antes do que pensara. A consciência é sempre o pior dos algozes.

                – Merda de tequila… resmungou outra vez, forçando os olhos a abrirem enquanto os pés tocavam o chão frio. Uma leve tontura a tomava de assalto e ficou na beira da cama alguns instantes, respirando fundo até finalmente conseguir abrir os olhos com esforço.

                O quarto fora tomando forma e alguns flashes da noite passada vieram a mente da empresária. As luzes, a música, os inúmeros brindes que fez com as amigas, a aposta que Carla perdeu quando Graciela finalmente revelou sua sexualidade. Dani riu de leve lembrando da cara da amiga quando a agente agarrou uma linda jovem na boate, mas seu sorriso não durou muito. Primeiro porque a dor de cabeça voltou e segundo, porque se lembrara de sua própria aventura, esta por sua vez, oculta as demais.

                Dani lembrou-se do beijo de tirar o folego. Do ciúme que a corroeu como ácido e das tequilas que tomou para tentar frear o sentimento. Ela achava que podia passar por aquela noite sem se deixar levar pelo desejo arrebatador que a consumia quando Ana estava por perto. Ledo engano. Bastou Ana ir atrás dela e desnudar sua alma com aqueles olhos azuis expressivos que o ciúme, o álcool e seu estúpido coração se uniram para traí-la outra vez.

                Os dedos ainda trêmulos foram aos lábios quando o beijo ardente lhe rompeu a memória, acordando toda e qualquer parte de seu corpo que ainda estivesse adormecida. Não podia negar que nos braços de Ana se sentia viva e aquilo a assustava muito. Então, em seguida, ela teve vagas lembranças de estar andando aos trôpegos, apoiada no ombro dela, sentindo seu perfume cítrico enlouquecedor. Elas haviam ido embora juntas. O coração de Dani acelerou quando ela olhou para a cama e viu os lençóis bagunçados. Suas roupas caídas do outro lado e o perfume de Ana por toda parte. Ela estava apenas de lingerie e podia sentir o frescor nos seus cabelos e pele. Havia tomado banho e vestido roupas novas, ou será que fora Ana quem o tinha feito? Suas bochechas ruborizaram ao imaginar que ela a tinha visto nua, ou quem sabe…

                – Merda, merda, merda…. Ela disse a si mesma, balançando a cabeça em negativa sem se importar com a dor – Eu não, não posso ter… droga!

                Levantou-se rapidamente, procurando a ruiva pelo apartamento e fechando os olhos de vez em quando, pela sensibilidade a luz. Ainda tonta, a empresária chamou por ela, mas tudo que ouvira foi o eco em seu apartamento. O desespero a assolou quando pensou que ela podia ter dormido com Ana dessa forma. Ela seria assim tão irresponsável? Olhou seu corpo no espelho e não viu qualquer marca. Sua pele era extremamente branca e parte de Dani sentiu-se aliviada porque ela sabia que se algo tivesse acontecido certamente alguma evidência em sua pele a denunciaria. O desejo entre elas era latente demais para que tivesse sido algo suave.

                Foi então, que ao voltar para o quarto em direção ao banheiro, os olhos castanhos depararam-se com a prova de que não estava louca. Ana esteve ali, com ela. Esteve em seu quarto, em seu apartamento e talvez até em sua cama. Aproximou-se com o peito sufocando e esticou as mãos para pegar um cartão branco que estava apoiado em um copo de água. Um comprido pequeno jazia ao lado, e Dani franziu o cenho confusa.

“Uma aspirina e um copo d’água duas vezes no dia e talvez você trabalhe amanhã sem precisar de óculos escuros.

 Isso seria muito ruim, não acha? É o meu primeiro dia, então, trate de deixar esses lindos olhos a vista.

Ah, eu fiz café. Bem forte. Faz parte do kit sobrevivência.

Beijos, Ana”

                O silêncio fez-se no apartamento, enquanto Dani relia algumas vezes o bilhete. Seus olhos caíram novamente sobre o copo da água e as aspirinas e parte de si sentia que poderia se entregar a todo aquele cuidado e carinho. Outra parte, porém, a mantinham assustada e indefesa. Ela já sabia que seria uma semana e tanto. Na verdade, seria um ano e tanto. O motivo de seu tormento agora não mais ficaria na empresa alguns dias na semana por quatro horas. Ana não era mais estagiária. Agora ela era uma empregada da AD Online. Mais do que isso, era irmã da dona. Da sua melhor amiga. Ela a veria todos os dias, por incontáveis horas, e não tinha ideia de como sobreviveria a isso. Poderia, ao invés, vencer a batalha contra ela mesma? Ou melhor, ela queria vencer essa batalha? Jogou o comprido na boca e bebeu a água de uma só vez.

                – Ah Ana… O que você está fazendo comigo?

                Perguntou a si mesma, enquanto levava o cartão até o nariz. Respirou fundo, fechando os olhos, sabendo que estava certa. O perfume dela também havia ficado ali. Estava em todo lugar. Talvez Ana tivesse trago o frasco e borrifado a fragrância em tudo só para atormentar sua paz. Ou quem sabe, aquele cheiro já a atormentava tanto que podia senti-lo em qualquer lugar. Se o cartão não estivesse ali, Dani até tentaria acreditar que chegara em casa sozinha. O perfume não podia ser uma evidência concreta, quando estava impregnado em sua pele, em sua memória, em seus sentidos. Era uma sensação de que onde quer que ela fosse não poderia evitar o que sentia, porque mais que tentasse. Abrindo a gaveta, retirou de lá uma foto antiga e se deixou chorar. Ficou olhando os rostos e novamente o medo assaltou seu coração, deixando-a perdida na própria solidão.

*****

                No dia seguinte, há alguns quilômetros dali a caçula dos Collins, por sua vez, era o ânimo em pessoa. A conversa com Amy no dia anterior e a noite agradável que teve junto dela e da cunhada haviam renovado seu ânimo. Foram apenas várias partidas de UNO, com petiscos, refrigerante e risadas, mas era tudo de que ela precisava. Carinho e amizade. E se nada havia dado certo na sua vida amorosa até ali, talvez fosse porque ela estava investindo suas energias no departamento errado. Ela precisava de um novo foco, uma nova perspectiva e agora finalmente ela tinha.

Cantarolou, em seu terninho impecável, os cabelos presos em um coque desengonçado, enquanto preparava as panquecas e mexia os ovos. Era seu primeiro dia como funcionária da empresa que a irmã fundou. Ana estava radiante porque além de ter seu emprego, havia feito tudo do jeito certo. Ela sempre temeu ter seu lado profissional abafado pelo fato de ser irmã da presidente da companhia. Por isso, desde o início, fizera questão de estagiar. E o estágio fora conseguido com muito suor. Ana fez a seleção e ninguém sabia ali que ela era irmã de Amy, nem mesmo a recrutadora que era nova na empresa. Ela pediu a sua irmã que fosse assim. Não queria nenhuma vantagem. Se conseguisse seria por mérito e não por privilégio.

                E agora, sua contratação não fora diferente. Ela se saiu bem no estágio, alcançando o melhor resultado nas metas de propaganda e contratos. Fechou duas parcerias importantes para a empresa, uma inclusive internacional. Graças a isso, Amy estava a poucos passos de expandir a primeira filial e por isso, ofereceu a ela o cargo de Analista de Publicidade e Administração. A ruiva seria a responsável por avaliar os contratos dos fornecedores de produtos, as propagandas e marketing que seriam criados e, além disso, fechar acordos com novos clientes.

                Essa, por sua vez, era a parte do oficio que a deixava assustada. Não porque não se sentisse capaz, muito pelo contrário. E sim porque a chefe de marketing e responsável pelos contratos era nada mais, nada menos que Daniela Moraes. A causa de suas insônias, palpitações e surtos cotidianos. Seria muito difícil estar tão perto dela e ao mesmo tão longe. Em alguns momentos de crise, a ruiva achou que seria impossível. Pensou até em tentar carreira em outra empresa, mas desistiu logo em seguida. Não podia anular-se pela paixão que sentia. Havia assumido o compromisso de colocar-se em primeiro lugar. E Deus sabe que tentou conquistar Dani, se aproximar dela, mas agora não tentaria mais. Respeitaria a rejeição dela e tentaria reprimir aquela vontade insana de beijá-la a todo custo. Seu foco seria o trabalho, a carreira e a nova fase em sua vida. Tinha de ser.

                – Uau! Se está tentando um bônus no primeiro salário fazendo café pra presidente, sinto lhe informar que vai ficar querendo.

                Amy entrou na cozinha de mãos dadas com Isabel, que sorriu docemente ao ver a cunhada toda arrumada, de terninho preto e gravata feminina vinho, assim como a irmã mais velha que vestia uma gravata azul turquesa com um terno risca de giz cinza grafite. Estavam lindas, pensou a loira. Aliás, eram lindas. A genética fora benevolente com as duas e Isabel já estava até habituada aos suspiros que as duas causavam por onde passavam.

                – Eu vou ter o salário reduzido se mandar a presidente se lascar logo de manhã? A caçula respondeu, colocando os pratos a mesa, já com panquecas e ovo mexido.

                – Com certeza vai! Amy respondeu rindo, enquanto beijava o rosto da irmã – Não sabia que seu salário de estagiária dava para comprar um terno tão elegante. Por acaso você andou desviando verba da empresa fedelha?

                Amy perguntou elevando a sobrancelha, enquanto Ana a mandava se ferrar com todos as letras fazendo Isabel gargalhar.

                – Pois saiba você, que ganhei esse e outros dois ternos de presente. Ana sorriu sapeca, colocando a garrafa de café sobre a mesa.

                – Ah é? E posso saber quem te presenteou?

                Ana deu a volta na mesa, ficando atrás da cunhada, que vestia uma saia social azul marinho e uma blusa de seda branca. Isabel sorriu, colocando as mãos por cima das mãos da cunhada, que a abraçou pelo pescoço.

                – Uma linda loira de olhos castanhos esverdeados. Ana beijou a bochecha de Isabel que sorriu ainda mais.

                – Ei, como assim? Você nunca me deu ternos de presente amor! Amy falou indignada, fazendo a caçula gargalhar.

                – Como se fosse fácil escolher roupas para você meu bem. Você é impossível com roupas. Nunca te agrada o que damos.

                – Não é verdade!

                – É sim. A blusa azul que eu te dei há dois meses para uma reunião, você disse em cima da hora que ela não combinava com a calça vinho que você queria usar. De tantas calças no seu armário você tinha que usar a única que não combinava com a blusa?

                Amy abriu a boca e nada disse. Ana gargalhava vendo a irmã vermelha e sem palavras diante da namorada. Aquela loira sabia desmontar sua irmã com pouco e ela a amava por isso com toda certeza.

                – Não amor, eu gostei da blusa é só que…

                – Que você é chata com roupas que não compra. Eu já desisti de te dar roupas de presente, então não reclame se sua irmã é receptiva ao meu bom gosto.

Ana gargalhou ainda mais quando Amy bufou derrotada e abocanhou uma torrada com ovos.

– Sem bico meu bem. O dia que você usar a blusa que te dei para uma reunião importante, quem sabe eu te compre uma gravata nova.

                Isabel piscou para a morena, mordendo a panqueca e resmungando de alegria.

                – Isso está maravilhoso cunhada! Por favor, ensine a sua irmã a fazer isso.

                – Ah qual é? Está tentando roubar minha mulher fedelha? Se tiver te demito agora mesmo.

                – Não tenho culpa se você é chata, não faz panquecas como eu e não fica gostosa de terno.

                – Vou ter que discordar disso. Quando sua irmã coloca terno sempre me deixa com tesão.

                Ana torceu o nariz com nojo e o ovo mexido parou no garfo próxima a sua boca. Amy gargalhou, esticando o pescoço para dar um selinho na namorada.

                – Ponto para mim.

                – Ponto para as duas, porque cunhadinha você está um arraso nessa roupa também. Creio que terá uma certa executiva muito atormentada na empresa hoje.

                Ana suspirou bebendo o café. Isabel e Amy se entreolharam e voltaram a encarar a mais nova.

                – Você está bem mana? Pronta para encarrar ela depois da boate?

                – Já me conformei na verdade. Quer dizer, ela nem me ligou, ou mandou uma mensagem qualquer agradecendo o “kit sobrevivência” que eu fiz. Então, certamente, vai ser um dia como todos os outros até hoje. Ela me trata profissionalmente e fala comigo o essencial. Ponto.

                – Ela vai ter que falar muito mais agora. Vão trabalhar praticamente juntas e ela será como uma chefe para você.

                – Nem me fala… Sempre tem uma parte ruim né?

                – Eu posso conversar com ela…

                – Não! Amy, por favor, não fala nada. Já chega de correr atrás da Dani. Eu só preciso que ela me trate bem profissionalmente falando e isso ela sempre fez. Então é isso. Eu vou lhe dar com a rejeição e seguir a vida.

                –  Sinto muito Ana. Isabel disse, pegando a mão da cunhada por cima da mesa. – Eu amo a Dan, mas tenho que dizer que ela está perdendo um partidão.

                – Ei! Já chega mulher… Amy disse estressada, fazendo as outras rirem.

                – Cunhadinha, se uma Collins te deixou caidinha assim, imagina uma versão mais nova que tal? Mais vigor, disposição…

                Isabel gargalhou enquanto Amy praticamente cuspiu o café e fuzilou a irmã.

                – É sério, você tem cinco segundos para sumir da minha frente, ou vai entrar pro Guines pelo primeiro emprego mais curto da história.

                A caçula bateu continência rindo, enquanto beijou rapidamente da bochecha da cunhada. Amy levantou-se da cadeira, ameaçando correr atrás dela e a ruiva saiu literalmente correndo com as panquecas na mão, enquanto a mais velha a encarava fuzilante. A menina desapareceu da vista rindo e assim que o fez, as duas namoradas se encararam e começaram a rir da mais nova.

                – Eu adoro essa relação de vocês. Já disse isso né? Isabel ponderou, recolhendo os pratos com ajuda da namorada.

                – Eu sinto muito que você não tenha mais isso amor. Eu não posso imaginar como essa pirralha me faria falta, então é difícil até considerar o que você sente, sabe, sem um irmão por perto.

                A loira deu um sorriso triste, balançando a cabeça em negativa ao encarar a namorada.

                – Está tudo bem, sério. Eu tenho vocês, não tenho? – Ajustou a gravata da morena, que assentiu ao beijar-lhe suavemente os lábios – Você sempre nos terá amor.

 – Eu sei. Agora vai antes que se atrase. É um dia importante hoje, novos funcionários, nova fase. Boa sorte!

                Amy aproximou-se ainda mais, segurando o rosto dela entre as mãos.

                – Essa sua doçura só me deixa mais apaixonada por você, sabia? E só para constar, você de saia social com uma lasca na perna me lembra a primeira vez que eu te vi na cafeteria. E agora eu sei que aquilo que eu senti naquele dia foi tesão, porque é impossível sentir qualquer outra coisa quando você se veste assim.

                – Eu posso te esperar assim mais tarde com uma trança de lado, se você tiver disposição, mesmo sendo a Collins mais velha.

                Isabel fez uma cara sapeca e a morena puxou-lhe pela cintura, fazendo seus corpos colarem.

                – Vou te mostrar quem tem disposição mais tarde. É melhor estar preparada.

                – Eu sempre estou senhorita Collins.

                O beijo veio ardente e intenso, ao mesmo tempo em que delicado. Elas não podiam deixar que evoluísse, mas podiam fazer uma promessa silenciosa enquanto suas línguas dançavam.

                – Eu te amo. Bom trabalho amor. Isabel sussurrou e Amy sorriu.

                – Eu – também – te amo. Amy respondeu, intercalando as palavras com selinhos. Não esqueça da trança mais tarde.

                – Tchau Amy.

                – Ah e pode colocar aquela cinta liga que eu adoro também. Amy jogou um beijo no ar já na porta da cozinha e saiu em seguida.

                Do alto do prédio, Isabel ficou olhando o carro partir minutos depois. Suspirou ainda sem certeza do que estava prestes a fazer. Ela sabia que devia contar a namorada, mas não teve coragem. Ainda era difícil assumir para si mesma os sentimentos que a consumiam. A relação com Amy era como uma ilha paradisíaca em meio ao mar. Ali ela estava segura, em paz, protegida. E uma grande parte de si temia que essa ilha fosse invadida por ondas gigantescas quando tudo viesse à tona. Ela só esperava que Amy entendesse e que ela não terminasse afogada no fim.

                Pegando a bolsa em cima do sofá, Isabel discou o número e esperou o segundo toque até que a voz soou do outro lado da linha.

                – Eu estou a caminho.

                – Você não vai se arrepender, prometo.

                A ligação encerrou e Isabel suspirou fundo vendo a porta do elevador se fechar.

                – Eu espero realmente que não.

***

                 Robin puxou o paletó para baixo, ajeitando-o no corpo, antes de adentrar a entrada da empresa. Ele estava ansioso, pois sabia que precisava se sair bem naquela entrevista. Suas referências eram boas, afinal Graciela o ajudara, mas ainda assim, nada aconteceria se ele não cumprisse sua parte no acordo.

                Seus olhos vagaram pelo local e sentiu-se indubitavelmente admirado.  Não imagina que a empresa que começou em tão pouco tempo fosse de tamanho bom gosto e organização. Um ambiente agradável e promissor. Ele entendeu porque Amy estava subindo no mercado tão rápido. Ela era boa de fato. Talvez não houvessem privilégios afinal.

                Chegou a recepção, onde uma jovem simpática o atendeu. Pedindo a identificação, cadastrou-o no sistema da empresa, indicando o local onde deveria ir. A porta destravou e ele percorreu o corredor que tinham um aroma agradável. Alguns funcionários o cumprimentaram no caminho, muito educados e gentis. Aquilo também o surpreendeu. Era nítido que as pessoas sentiam prazer em estar ali. Subestimou Amy Collins achando que ela era apenas uma maldita sortuda, mas precisava admitir que todos os indícios apontavam o contrário. Uma primeira impressão que deixava muitos questionamentos em sua cabeça.

                – Você deve ser o Senhor Williams correto? Uma mulher elegante e bonita o atendeu. Ela tinha um leve cansaço no olhar, mas que ficava abafado por sua simpatia.

                 – Sim, sou eu, muito prazer, senhorita…?

                – Daniela Moraes. Sua entrevista será comigo. Robin pareceu surpreso e Dani o analisou com cuidado. – Algum problema?

                – Não, não. Nenhum. É que a recepcionista me disse que eu deveria procurar a presidente Senhorita Amy Collins? Mentiu para disfarçar, afinal não poderia dizer que a garantia tinha sido dada por Graciela, dias atrás.

                – Ah sim, de fato seria. Mas como a vaga está diretamente ligada a mim, acertamos que eu faria a entrevista.

                – Claro, desculpe.

                – Então, Senhor Willians, se quiser a vaga terá que me convencer.

                O rapaz sorriu e seguiu pelo departamento onde inúmeras pessoas trabalhavam em seus computadores. Seus olhos pararam na última sala onde havia uma placa escrito “CEO Amy Collins” e logo em seguida a porta que fora aberta pela executiva “Vice-Presidente Daniela Moraes” ficava logo ao lado. Ambas tinham partes de vidro que permitia ver-se o movimento dos funcionários a frente.

                Graciela não havia falado de Daniela Moraes o bastante e aquilo o deixou ansioso. Estava em terreno desconhecido e se não tivesse a atitude correta perderia a chance de entrar ali. Sentou-se, aguardando a mulher olhar seu currículo em silêncio, enquanto a persiana se fechava tirando a visão de quem estava do lado de fora. Ele nunca fora muito bom em argumentar a favor de si mesmo, por isso havia ensaiado para uma entrevista com Amy Collins, munido das dicas da agente e agora não tinha nada. Sua testa soou levemente, e ele levou a mão para enxuga-la, atraindo o olhar de Dani por cima da folha.

                A mulher percebera o nervoso do homem. Sua aparência condizia com as descrições do currículo que aliás eram muito boas demais por sinal, o que a intrigou. Não que sua empresa fosse ruim, ela estava crescendo consideravelmente, mas ainda assim era surpreendente ver alguém tão qualificado querer buscar emprego ali, onde ainda não podiam oferecer tanto quanto certamente ele estava acostumado a receber.

                – Então, senhor Williams, qualificações não lhe faltam. Formando em Contabilidade em Harvard, experiência em grandes companhias, bons resultados em todas elas. Realmente um ótimo candidato à vaga.

                – Obrigado. Robin respondeu confiante, talvez não precisasse ficar tão nervoso. Seu currículo era bom, não seria recusado.

                – Tão bom que me faz pensar porque está aqui. Dani o encarou, depositando o currículo em cima da mesa. Robin apertou as mãos nervoso, encarando a executiva surpreso.  

                – Como?

                – Suas qualificações são excelentes Senhor Williams, e suas experiências foram conquistadas em grandes empresas como a Google por exemplo. Essas empresas são consolidadas, enquanto a nossa é uma empresa em ascensão. E obviamente não podemos oferecer as vantagens que o senhor obteve em outras companhias, nem a nível de benefícios e nem a nível de remuneração. Há outras empresas no Brasil com maior potencial que certamente adorariam sua candidatura, então minha única pergunta é: Porque a AD Online? O que o traz aqui, de verdade?

                Robin congelou, engolindo em seco. Daniela Moraes era bem mais inteligente do que ele pensava. Talvez em qualquer outro lugar seu currículo seria o suficiente, mas não ali. Não era de se surpreender que a empresa de Collins tivesse uma vice-presidente a altura. Respirando fundo, o rapaz subiu os óculos de grau no rosto e apertou as mãos na calça de linho, para secar as palmas que suavam.

                – Na ver-dade… Robin gaguejou e fazia anos que ele não gaguejava, mas definitivamente estava nervoso demais – Na verdade, eu fiz minhas pesquisas e a AD Online teve o sétimo maior faturamento de empresas de vendas on-line do Brasil, o que é uma grande ascensão, pois a posição no ano anterior era de 15° lugar.

                Dani ergueu a sobrancelha e fez menção para que ele continuasse. O rapaz afrouxou as mãos na perna, retomando o raciocínio e sentindo-se mais confiante, agora que parecia ter tomado a atenção da executiva para si.

                – Um salto que significa um crescimento de mais de 50% em receita orçamentária e indica que há uma grande qualidade administrativa na empresa. Para crescer é necessário aliar faturamento à contensão de despesas e para faturar é preciso um produto de qualidade e um grande marketing, porque os produtos vendidos on-line não podem ser tocados, então é o que público vê que o atrai. Eu sou um excelente contador Senhorita Moraes, tenho grande experiência com economia e admiro o passo que estão dando aqui. Vocês estão pensando em expandir, mesmo quando ainda estão em curso de consolidação financeira e se forem no caminho certo, podem estar em os três melhores faturamentos do país no ano que vem, mas se forem no errado…

                – Podemos colocar tudo que conquistamos a perder. Sabemos disso. Por isso lhe digo que temos muito trabalho, mas ainda não temos tanto a oferecer. No entanto, aqui é um ambiente saudável, as pessoas estão felizes e ninguém é negligenciado. Nós oferecemos o melhor ao funcionário e ele oferece o melhor para nós. Esse crescimento é mérito de todos e todos ganharão com isso no seu devido tempo.

                – É muito justo. Eu gostaria de fazer parte desse time.

                – O senhor ainda não me disse porque, apenas elogiou a companhia. Dani sorriu singelamente e Robin admirou a mulher. Além de inteligente e bonita era osso duro de roer. Trabalhar com ela não seria nada fácil.

                – Gosto de desafios e com todo respeito, as outras companhias que mencionou que me aceitariam de bom grado já estão consolidadas. Eu faria o que fiz nas outras sem grandes surpresas. Aqui, porém, está o desafio e isso que me move. Se a AD Online estiver entre as principais empresas do Brasil ano que vem eu certamente terei ganhado muito, especialmente, se quem sabe que voltar para o exterior e tiver o que administrar lá.

                Dani arqueou a sobrancelha. Ali estava o ponto. Ele pensava em administrar uma filial da empresa no exterior se elas conseguissem o objetivo. Uma ambição afinal condizente para alguém com o currículo dele.

                – Isso é tudo Senhor Williams. Esteja aqui em dois dias com os documentos que o RH lhe mencionar e pronto para seu exame de admissão. O salário e os benefícios serão definidos por nós com base nas suas qualificações e claro dentro das nossas possibilidades. O senhor será informado por telefone sobre a proposta e se aceitar a oferta, estará em nosso time em breve. Obrigada por comparecer e tenha um excelente dia.

                Dani levantou-se e estendeu a mão para o rapaz que rapidamente aceitou o cumprimento. Ele estava extremamente aliviado e contente. Tinha conseguido.

                – Obrigada Senhorita Moraes. Devo dizer que trabalhei em grandes empresas e todas elas tinham algo em comum com essa.

                 – E o que é?

                – Uma diretoria extremamente competente.

                Dani sorriu, sentindo-se feliz com o elogio. Era bom saber que estavam no caminho certo. Batidas se fizeram a porta e o olhar da empresária direcionou-se para lá. Imediatamente seu coração acelerou quando viu o os olhos azuis de Ana fitarem o aperto de mão que ela dava no mais novo empregado da companhia. Ela soltou-se do cumprimento em reflexo e Robin olhou para a ruiva. Ele reconheceu imediatamente a mais nova, as fotos que vira não deixavam dúvidas.

                – Desculpe senhorita Moraes. Eu trouxe os contratos que pediu, não sabia que estava ocupada. Ana disse extremamente profissional, e Dani cerrou os olhos, intrigada com a postura. Era a primeira vez que via a garota depois da boate.

                – Deixe na minha mesa por favor. Senhor Williams, espero nos vermos em breve.

                – Eu o acompanho até a saída. Ana disse fazendo menção para o rapaz que sorriu e pegou sua pasta em cima da cadeira.

                – Na verdade, preciso de você na minha sala Collins. Vou chamar a secretária para acompanha-lo.

                – Não é necessário, eu gravei o caminho. Não se preocupem. Muito obrigado mais uma vez. Um bom dia para vocês.

                Robin saiu porta a fora, deixando ambas sozinhas na sala. A empresária virou-se para a ruiva e o ar executivo amenizou. Ana mantinha-se altiva, encarando-a em silêncio. A atmosfera parecia pesada e aquilo estava incomodando a caçula. Os silêncio se fez presente e Ana tentou não se enaltecer com o olhar da mais velha, que a fitava de cima a baixo.

                – Bem se não precisa de mim… Caminhou até a saída, passando por Dani que segurou seu braço impedindo-a.

                – Ele estava sendo entrevistado. Quando você chegou estávamos nos despedindo apenas. A caçula olhou para Dani e teve vontade de rir. Ela parecia justificar-se e aquilo só podia ser mesmo uma piada. Parte dela queria socá-la por sua bipolaridade e uma outra parte insistia em ter esperanças sobre aquilo.

                – Não me deve explicações, chefe. Fique tranquila. Se me der licença eu tenho alguns contratos para ler.

                – Obrigada. Dani disse sincera e o corpo da ruiva travou em surpresa. Seu rosto virou-se de imediato para a empresária. Os olhos castanhos estavam serenos e pareciam até mesmo doces – Eu vi o cartão e o kit de sobrevivência que você deixou – Fez aspas com os dedos e sorriu encarando a caçula que permaneceu imóvel – Não precisava, mas obrigada.

                – Achei que não tivesse encontrado, mas fico feliz que tenha ajudado. A mais nova engoliu em seco, mantendo a mão na maçaneta.

                – Estou sem óculos escuros não estou? Dani brincou.

                – É você está.

                – Você ficou acordada a noite toda? Dani perguntou baixinho, quase sussurrando.

                – Se quer saber se dormimos juntas, a resposta é não. Eu jamais faria isso. Você estava bêbada.

                – Não é por isso que eu perguntei, eu jamais pensaria mal de você.

                – Não nesse ponto.

                – Qual é Ana? Eu estou tentando ter uma conversa decente e você está aí toda armada.

                – Eu tenho meus motivos não tenho? – Dani a encarou muda, o olhar ficando tenso de repente – Olha só vamos continuar como estávamos, certo? Você me trata profissionalmente e eu a você. Tudo certo. Não precisa se preocupar quanto a isso.

                – O que você quer dizer? Dani perguntou receosa e Ana finalmente se aproximou dela desistindo de sair por um momento.

                – Que eu entendi. Demorei, mas entendi. Você não quer nada de mim que não vá além disso aqui. E eu quero muito esse emprego, então estamos de acordo. Agora se me dá licença eu tenho alguns contratos para analisar com a Carol, trago o mais rápido que puder.

                – Carol?! Dani questionou sem perceber. Seu coração apertou ao perceber a naturalidade com que a garota falou da nova funcionária.

                – Algum problema?

                – Ela é sua estagiária e está no primeiro dia. Não devia trata-la com tanta intimidade. Ana arquejou a sobrancelha, percebendo o arfar raivoso contido da executiva. Ela estava com ciúme?

                – Ciúmes?

                – Não seja ridícula. Dani afastou-se ficando atrás da mesa. – Sou sua chefe agora, estou apenas fazendo ponderações.

                – Fique tranquila, não vai chegar nenhum contrato de assédio na sua mesa. Eu sei aonde e quando posso fazer as coisas.

                Ana piscou, direcionando-se a porta e Dani sentiu seu coração pular do peito de uma maneira que parecia que seu ar tinha acabado. Ela não tinha se dado conta até aquele momento do quanto precisava daquela garota e diabos, estava explodindo de raiva por conta daquele atrevimento.

                – Ana! Gritou, querendo correr até ela e jogá-la na mesa para dar-lhe uma lição. Queria arrancar as roupas delas e não sair daquela sala nunca mais. Deus, como ela queria. Mas tinha medo. Tinha tanto medo que estava paralisada. E tinha ciúmes, dos grandes.

                – Sim chefe? Ana encarou-a com o rosto em puro cinismo. E viu quando Dani estreitou o olhar em pura fúria. Ela estava brincando com fogo sabia disso. Seria ela muito estúpida em desejar se queimar com tanto ardor?

                – Eu quero os contratos analisados em minha mesa em uma hora. Aproveita e pede a sua estagiária para fazer toda a conferência de clientes. Vamos ver se ela é eficiente.

                – Ah ela é. Com certeza.

                Ana deu um leve sorriso, saindo em seguida. E Dani bateu na mesa absolutamente possessa com o atrevimento dela. Mal ela sabia que lá fora, o olhar confiante da caçula novamente havia ficado triste, mas ela respirou fundo deixando que o trabalho preenchesse aquele vazio. O ciúme de Dani seria uma boa coisa se a impulsionasse a tomar uma atitude, mas aquilo parecia impossível.

Lá dentro da sala, Dani não estava diferente. Uma lágrima escorregou por seu rosto quando retirou o cartão branco do bolso e novamente o cheirou. Ainda tinha o cheiro dela. Aliás, tudo agora tinha o cheiro dela. Sua sala, sua roupa e até mesmo seu coração. E possivelmente a roupa da estagiária já que o maldito perfume impregnava tudo. Nervosa, a empresária discou o ramal e poucos segundos depois ouviu a voz de sua melhor amiga e presidente na linha.

– Ocupada?

– Um pouco, mas o que houve?

– Precisamos conversar. Almoça comigo?

– Só se for para comer aquele macarrão de frutos do mar.

– Feito.

1 Comentário

  1. Jéssica Lauanda de Abreu

    A história está cada vez melhor, intrigante e envolvente! A única coisa ruim é ter que esperar muito tempo por um capítulo .

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